Poesía de Pedro Jubilot en traducción de Santiago Aguaded Landero

TAVIRA | ALGARVE | PORTUGAL

 

desço a Rua da Liberdade e é como se a Nova Aurora, uma pequena e recatada loja que nos guardava os livros, subsistisse estranhamente para cá do tempo, ali de porta aberta, resistindo assim sem a explicação das coisas que se teimam simples e indiscretas

 

ainda que o achem inconsequente, nesta era que passa voraz a caminho de uma tal de evolução, seria hoje um cubículo irreconhecível, antro de teimosia, depósito de lombadas tombadas

 

e logo vejo a Fernanda Guerra debruçada sobre afazeres de prazeres, privilégio que alguns tiveram de assim levar um modo de viver ao sabor de saberes, desejos e suplícios, sucessões de volumes encadernados a emoções desregradas

 

e o que é uma livraria, presentemente, que não apenas um templo abandonado aos que ainda crêem e lêem

 

 

 

 

 

TAVIRA | ALGARVE | PORTUGAL

 

 

 

Desciendo por la Rua da Liberdade y es como si la Nova Aurora, una pequeña y modesta tienda que guardaba nuestros libros, sobreviviese extrañamente al paso del tiempo, allí con la puerta abierta, resistiendo sin la explicación de las cosas que siguen siendo simples e indiscretas

 

aunque lo encuentren intrascendente, en esta época que avanza vorazmente hacia una especie de evolución, hoy sería un cubículo irreconocible, un antro de tozudez, un depósito de espinas caídas

 

y entonces veo a Fernanda Guerra inclinada sobre tareas placenteras, el privilegio que algunos han tenido de llevar una forma de vida aderezada por el conocimiento, los deseos y los tormentos, sucesiones de volúmenes atados con emociones rebeldes

 

y qué es hoy una librería sino un templo abandonado a los que aún creen y leen

 

 

 

 

 

VENEZA | VENETTO | ITÁLIA

 

 

 

neste labirinto sitiado sobre estacas, num porto muito procurado pelos exploradores de mundos remotos, uma livraria de nome Acqua Alta, subsiste/resiste, obriga-nos necessariamente a ter de condescender que nem tudo está perdido

 

quando se enche cuidadosamente uma gôndola de artefactos de papel, indubitavelmente descontinuados, com todo o risco de se molharem, dispostos/expostos à humidade das sizígias que encharcam docemente a laguna, não sentimos os outonos perdidos pela vida

 

 

 

 

 

VENECIA | VENETTO | ITALIA

 

 

 

en este laberinto sitiado sobre pilotes, en un puerto muy buscado por exploradores de mundos remotos, una librería llamada Acqua Alta, subsiste/resiste, obligándonos necesariamente a darnos cuenta de que no todo está perdido

 

 

 

cuando se llena cuidadosamente una góndola de artefactos de papel, sin duda descatalogados, con alto riesgo de mojarse, dispuestos/expuestos a la humedad de la sicigia que dulcemente empapa la laguna, no se sienten perdidos los otoños para la vida

 

 

 

 

 

VENICE BEACH | LOS ANGELES | E.U. AMÉRICA

 

dizem que a perfeição existe: é passar uma hora da nossa vida numa livraria com o mar ao fundo

 

vocês que conhecem bem o ambiente tranquilo, por vezes decadente, das livrarias independentes, algumas delas com um cheiro característico a pre-mortem

 

não conseguiriam fazer ideia como tudo aqui é diferente (ou apenas à maneira do oeste americano) na Small World Books - movimentada, viva e peculiar. tem tudo o que se possa imaginar, ou por desejar, grandes, conhecidas ou menores edições. haja dinheiro em dólares para gastar

 

a única coisa igual é que os gatos, esses amigos dos livros, ou dos chatos dos donos deles que gostem de livros, podem também entrar e deambular

 

 

 

 

 

VENICE BEACH | LOS ÁNGELES | E.U. AMÉRICA

 

 

 

dicen que la perfección existe: es pasar una hora de tu vida en una librería con el mar al fondo

 

los que estéis familiarizados con el ambiente tranquilo, a veces decadente, de las librerías independientes, algunas de las cuales tienen un característico olor pre-mortem

 

no tendrían ni idea de lo diferente que es todo aquí (o sólo en el sentido americano occidental) en Small World Books: bulliciosa, animada y estrafalaria. hay todo lo que se pueda imaginar, o desear, ediciones grandes, conocidas o menores. haya dinero en dólares para gastar

 

lo único que es igual es que los gatos, esos amigos de los libros, o de sus molestos dueños a los que les gustan los libros, también pueden entrar y merodear

 

 

 

 

 

SANTORINI - CICLADES – GRÉCIA

 

 

 

nevou em Santorini ontem à noite.

 

tinhas deixado o fato de banho pendurado

 

a secar, no varão do duche, na esperança

 

de ires nadar ao mar pela manhã cedo

 

 

 

mas Poseidon afinal existe, e agora chama-se

 

Alterações Climáticas. e nós que pensámos, que

 

com as medidas da cop26 iriamos estar juntos

 

até 2050, numa solarenga ilha mediterrânica…

 

 

 

vamos ter de nos acostumar à ideia de que

 

este é o derradeiro mergulho no nosso amor:

 

o Relógio do Apocalipse está a 100 segundos do fim

 

 

 

a água congelou na canalização, e nem a piscina

 

coberta do hotel vai abrir hoje. será que vamos

 

comer souvlakis e beber ouzo todo o dia?

 

 

 

SANTORINI - CÍCLADAS - GRECIA

 

 

 

Ayer noche nevó en Santorini.

 

habías dejado el bañador colgado

 

para secar, en la barra de la ducha, a la espera

 

de ir a nadar en el mar por la mañana

 

 

 

pero Poseidón existe después de todo, y ahora se llama

 

Cambio Climático. y pensamos, que

 

con las medidas cop26 estaríamos juntos

 

en 2050 en una soleada isla mediterránea...

 

 

 

vamos a tener que acostumbrarnos a la idea de que

 

este es la última inmersión de nuestro amor:

 

el Reloj del Apocalipsis está a 100 segundos del final.

 

 

 

el agua se congeló en las tuberías, y ni la piscina

 

cubierta del hotel abrirá hoy. ¿Vamos

 

a comer souvlakis y beber ouzo todo el día?

 

 

 

 

 

ODESSA | OBLAST | UCRANIA

 

 

 

numa esplanada apinhada da praia de Arkadia

 

pousas o teu look soviet-chic, já tão anos 80,

 

tardio mesmo para uma suposta turista cultural

 

 

 

que pensei que fosses mais uma estereotipada

 

fã incondicional do duplo álbum vermelho

 

que os irmãos Gibb gravaram em 1969

 

 

 

mas tu tão desoladoramente bela, estavas

 

apenas a meio de uma operação fotográfica especial

 

para uma revista europeia de moda underground

 

 

 

quando me disseste que eras mesmo de aqui,

 

e até já foste miss, da rainha do mar negro,

 

nunca te imaginaríamos uma futura refugiada

 

 

 

está muito calor hoje, o verão aqui pode ser

 

uma estação agressiva, invasiva, o vento de leste

 

pode de repente sobrar, e empurrar-nos para fora

 

 

 

ODESSA | OBLAST | UCRANIA

 

 

 

en una terraza abarrotada de la playa de Arkadia

 

dejas tu look chic-soviético, tan de los 80,

 

obsoleto incluso para un supuesto turista cultural

 

 

 

Pensé que eras sólo otro estereotipo

 

fan incondicional del doble álbum rojo

 

que los hermanos Gibb grabaron en 1969

 

 

 

pero tú, tan desgarradoramente hermosa, estabas

 

justo en medio de una sesión fotográfica especial

 

para una revista underground europea de moda

 

 

 

cuando me dijiste que realmente eras de aquí,

 

y que hasta fuiste miss, la reina del mar negro,

 

nunca te hubiéramos imaginado futura refugiada

 

 

 

hace mucho calor hoy, el verano aquí puede ser

 

una estación agresiva e invasiva, el viento del este

 

puede soplar de repente y empujarnos fuera

 

 

 

 

 

NAPOLI | CAMPANIA | ITALIA

 

 

 

muitas das gentes de sempre, de aqui, continuam aí

 

nas ruas, e também muitas novas gentes agora, também

 

por aí ao deus dará numa miríade de confluências

 

 

 

que lugar outro melhor de encontrar para viver

 

 

 

onde não se pode fugir à fome da cidade real,

 

nem se abandonar ao fatal totaliturismo, não

 

vão para a costa fugir a este húmido calor infernal

 

 

 

e nesta vertigem, para nós turistas, é tão difícil

 

imaginar o que foram os dias de confinamento

 

nesta profusão de divergências, que local tão

 

simplesmente catártico, frenético, ruidoso

 

 

 

que lugar outro melhor de encontrar para morrer

 

 

 

NAPOLI | CAMPANIA | ITALIA

 

 

 

muchas de las personas del pasado, de aquí, siguen allí

 

en las calles, y también mucha gente nueva ahora, también

 

abandonados a su suerte en una miríada de confluencias

 

 

 

Qué lugar mejor para vivir que encontrar

 

 

 

donde no se puede escapar del hambre de la ciudad real,

 

ni siquiera ceder al fatal totalitarismo, no

 

van a la costa para escapar de este húmedo calor infernal

 

 

 

donde no se puede escapar del hambre de la ciudad real,

 

ni ceder al totalitarismo fatal, no

 

vayas a la costa a escapar de este húmedo calor infernal

 

y en este vértigo, para nosotros los turistas, es tan difícil

 

imaginar los días de encierro

 

en esta profusión de divergencias, que es tan

 

simplemente catártico, frenético, ruidoso

 

 

 

No encontraras lugar mejor para morir

 

 

 

 

 

PIAZZA DI SPAGNA | ROMA | ITALIA

 

 

 

quem quer ir ver o museu daquele cujo nome foi escrito na água,

 

a casa onde viveu esse romântico desesperado, o jovem poeta

 

inglês (e depois ainda visitar a tumba anónima de J. Keats)?

 

 

 

ali numa praça que extasia de presente, numa era que fervilha

 

toda ela de paixão, de apaixonados, de gente perdida no amor,

 

quando podemos ficar a encher as redes de stories com corações

 

desenhados com os dedos enroscados, de tanto tempo a clicar

 

 

 

será cliché dizer que estamos na cidade do amor?

 

(embora só nós e os falantes de espanhol o saibamos),

 

 

 

no entanto, se fizermos scroll, reparamos que todos os outros

 

turistas, também eles, estão ainda assim, vulneráveis

 

e esmorecidos quando perante as vicissitudes do amor

 

em tempo de cólera e guerra e da crise política/económica

 

 

 

PLAZA DE ESPAÑA | ROMA | ITALIA

 

 

 

quien querría ir a ver el museo de aquel cuyo nombre estaba escrito en agua,

 

la casa donde vivió aquel romántico empedernido, el joven poeta

 

inglés (y luego visitar la tumba anónima de J. Keats)?

 

 

 

allí en una plaza extasiada de presente, en una época que rebosa

 

toda ella pasión, de enamorados, de gente perdida en el amor,

 

cuando quedaremos a llenar las redes de historias de corazones

 

dibujados con los dedos enroscados, de tanto tiempo clicando

 

 

 

¿Es un cliché decir que estamos en la ciudad del amor?

 

(aunque solo nosotros y los hispanohablantes lo sabemos),

 

 

 

sin embargo, si nos desplazamos, notamos que todos los otros

 

turistas, siguen siendo vulnerables también

 

y desfallecen cuando delante de las vicisitudes del amor

 

en tiempos de cólera y guerra y crisis política/económica

 

 

 

Traducción de Santiago Aguaded Landero

 

 

 

 

Pedro Jubilot (1964, Olhão. Algarve, Portugal)

 

Editó fanzines, webzines y otras hojas volantes.

 

En 2001 ganó el concurso “MicroCuentos de Navidad”, del diario Público con «Visita», publicado también en ‘El País’.

 

Es miembro de la dirección de la Asociación Casa Álvaro de Campos de Tavira.

 

En 2013 publicó su primer libro «Postais da Costa Sul», que sirvió de incentivo para crear a CanalSonora - una pequeña estructura independiente, sin ánimo de lucro, que se centra en la difusión artística, esencialmente de la escritura y de la imagen.

 

En 2015 publicó el cuento «Alma» (4Águas editora), una ficción sobre el anarquista Bartolomeu Constantino.

 

En 2016 publicó «Telegramas do Mediterrâneo». «Cartas da Mancha» (2018) es su libro más reciente.

 

Ha participado en festivales y en diversas antologías de poesía en Portugal y España.

 

En novembro de 2020 há recibido el prémio ‘Calceteiros de Letras’ del Ginásio Clube de Faro, por su acción y dedicación en la divulgación de la palavra y de la poesia.

 

Actualmente forma parte del colectivo ESPÚRIA, con el que publicó su más reciente libro «Veneza de Tédios».

 

 

 

Semblanza y fotografía proporcionadas por Pedro Jubilot

 

 


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